quarta-feira, agosto 04, 2010
Cinza + eiro
Neste final do mês de Julho
solarengo e quente
encontrei um cinzeiro
Não tinha beatas
Nem cinzas
Não tinha, elegantemente,
um cigarro acesso na sua ourela.
Continha só e apenas
uma chave, agrafos
e alguns pedaços de papel em branco!
O meu peito de espanto se apartou
de tão vil uso
porque neste covil
Meu cinzeiro não viverá.
João Mariano
sexta-feira, maio 14, 2010
Que olhos são estes que vêem o povo
- E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa da oração – mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.” – S. Mateus, 12.
“Naqueles dias, havendo mui grande multidão, e não tendo que comer, Jesus chamou a si os seus discípulos, e disse-lhes:
- Tenho compaixão da multidão, porque há três dias que estão comigo, e não têm que comer.” – S. Marcos, 8,2.
Eis o homem! Não tenho interesse se Deus que sabe tudo, todo-poderoso e que está ao mesmo tempo em toda a parte, existe. Em mim, partiu, de saco às costas, em viagem, e esqueceu a sua má-criação ou sofrerá de demência. Certo seria, o homem, cujo nome é Jesus ou Joschua, descer à terra e dar com pau em todos os santuários que façam negócio de supostas imagens imaculadas. Afinal quem é o Criador? Santa Bárbara? Vénus? S. Jorge? Apolo? S. Chiquinho?
Oiçam o bezerro de ouro: “Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, ajuntou-se o povo a Aarão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós: porque, quanto a este Moisés, este homem que nos tirou da terra do Egipto, não sabemos o que lhe sucedeu (....)
E Aarão lhes disse: Arrancai os pendentes de ouro que estão nas orelhas das vossas mulheres, e dos vossos filhos, e das vossas filhas, e trazei-mos (…)
E ele os tomou das suas mãos, e formou o ouro com um buril (cinzel), e fez dele um bezerro de fundição. Então disseram: Estes são os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egipto.”
Quantos bezerros de ouro tem Fátima? E outros quantos a cidade-estado do Vaticano, monarquia absoluta? Moisés ao quebrar as tábuas do testemunho não atingiu Aarão. O bezerro de pé contínua e Jesus não irá no meio do povo, justo seria, enviar a sua espada e mostrar a sua glória, a nossa glória, a glória de um povo trabalhador e merecedor do chão que pisa. Dito de outra forma: a cristianização da acção directa, concretizada pela humanização, pela abordagem dos problemas concretos dos seres humanos…, a especulação, os cambistas, a defesa intransigente do suor de quem trabalha.
Terra das Amendoeiras, 14 de Maio de 2010, partida do Papa da cidade do Porto.
João Mariano
quinta-feira, abril 22, 2010
Verbo poetar no presente do indicativo
Tu poetas
Ele poeta
Nós poetamos
Vós poetais
Eles poetam
quinta-feira, abril 15, 2010
terça-feira, abril 13, 2010
Unidade e Unicidade
Pois bem: ou Paulo Rangel não conhece a língua portuguesa ou os dicionários estão errados. Vejamos: o termo unicidade significa a qualidade do que é único. O termo unidade significa, agrupamento de soldados, sob o comando de um chefe, o que pode ser considerado individualmente (em oposição a pluralidade), concórdia de vontades, uniformidade, conformidade, identidade. Em suma união.
Isto parece ser um trocadilho… e não me atrevo a dizer o resto.
sexta-feira, março 19, 2010
Um Filho
Um Filho
Quem o fizera na cama
E uma mulher
Cheirando a urzes.
Um Filho
“Dorme, dorme, meu menino…”
No pânico das primeiras dores
O milagre é o anúncio da gravidez
e a espera uma espécie
de tempo de purificação.
Acordou cedo
E no esforço físico dos olhos em síntese disse:
- Voltei de mãos vazias
Por encontrar na alma
O que não sentia.
Pedrobala
O que dirá a pureza inicial
neste mundo em estado tóxico do encéfalo?
Eu tenho uma fotografia de cariz sexual explícito,
assim considerada pelos obscenos,
como um casco velho de um navio
guardada como acto de penitência.
Todavia, que o melhor fixar de olhos
Examine minuciosamente a nossa miséria.
Tenho a impressão da tua imagem
como uma cicatriz no meu corpo
que não se cansa de abrir .
Vives como uma garganta
uma porta aberta à interrupção definitiva da vida.
És um sinal, como quem invoca um favor divino,
da indigência de todos nós.
Que venham as marés!
Nesta quadra do ano que faz mais calor
levantarei esta peça de ferro forjado
e tu partirás com o vento.
Tua cruz transportada será nos meus braços
e que a vontade seja feita na tua real idade.
Quem percorre a noite
e a noite transforma em fluxo radiante e estimulante?
Oh! olhos da noite
fêmea das fases lunares
os muros multiplicam-se
e amo-te em público.
Senhor, dai-nos guarida
neste covil de feras
os envidraçados da cidade vigiam-nos
como salteadores à solta.
Termo Sem Metro
como se fosse
uma labareda que se eleva.
Era o tempo em que o sol estava abaixo do horizonte
e as brancas paredes do pátio
permaneciam mudas,
as mãos dela
andavam sem reflexão nem tino
como quem se esforça por descobrir
a claridade de uma noite sem lua.
Ela, numa vela,
viu a toalha velha
e deitou-se nas mudas rugas
do branco pátio
porque nua estava ela.
quarta-feira, março 10, 2010
Silêncio
que confina com o mar
Quando caiu a tarde e com o aproximar da noite
Ela despontou distante
como embarcação de pequenas dimensões e sem coberta
Neste momento a estrela
que é o centro do nosso sistema planetário
Mergulhou na grande massa e extensão de água salgada
Retirando-se sem bulício e sem sons dissonantes
Ela contemplou a esfera celeste
recolhendo-se como se tivesse cessado de falar
ou de produzir qualquer som.
João Mariano
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Ladrão em cuecas
é dono do supermercado
A gente é séria
e ela agente elaborou
o auto-de-notícia
sem que estivesse pendurada
no morro e sem barracão de zinco.
O ladrão, apanhado,
sem gente, por uma,
pequena janela...
João Mariano
terça-feira, fevereiro 09, 2010
domingo, fevereiro 07, 2010
a paz vem de longe, o homicídio de perto
A palavra é uma arma serena.
ZiGuE zAgUe de dOr
Relaxa
Vivemos entre duas ondas que podem explodir
Tu eras uma criança eu também
teus lábios viveram nos meus
e os meus nos teus
Sabes quem fomos?
Será que tudo foi feito?
Vamos adoecer
gripados no furacão?
digo Não,
vamos surfar essas ondas
é tempo de partir
Gritar pela dor passada
é não ver a lua brilhante
sente, meu amor, o rumor e o compasso da morte
sinfonia eléctrica
choro
canto oculto na noite de cada um
Não grites
rEsiste e sobrevive
brilha como o soL
como se nos teus dedos
transportasses diamantes
vai... serena
quem éramos?
ninguém sabe quem fomos no quarto abandonado
não chores nos teus anéis de diamante
enquanto o sol brilha
ele passa pelos teus cabelos
e nos ombros nus
inutilmente se esconde no horizonte.
sexta-feira, janeiro 22, 2010
A significação de um termo depende, essencialmente, da estruturação mental daquele que o utiliza
Tal como o sofista prometia tornar “melhores” os jovens que lhes eram confiados, estes comentadores não são conformes com um ideal humano: a sua única ambição é preparar os discípulos para triunfar na vida política, social, económica, futebolística com a finalidade de tomar conta do poder.
Tais ilustres comentadores seguem o seu mestre Protágoras, sofista exímio, segundo o qual “o homem é a medida de todas as coisas”; o que parece justo a um indivíduo ou a uma cidade é para eles justo. Trata-se, portanto, de levar aqueles de quem depende o acesso aos altos cargos a considerar justo aquilo que é vantajoso para o interessado.
Eis os egocêntricos, tal qual se passa na segunda infância, caracterizada pela ausência de distinção entre a realidade pessoal e a realidade objectiva. Não se descobre neles qualquer preocupação científica ou filosófica, aliás, apenas aproveitam aquilo que lhes vai servir para, no momento oportuno, embaraçar o adversário, só o sucesso lhes importa. Dito de outra forma: recorrem sistematicamente a argumentos enganosos, cuja validade é apenas aparente.
Deviam preocupar-se em ganhar madrugadas e não a perder noites.
Queluz, 22 de Janeiro de 2010
João Mariano
segunda-feira, dezembro 14, 2009
http://www.beatlestube.net/video.php?title=Blackbird
Aquele gatinho, bonitinho, fofinho, o que seria dele, quando o tempo passasse? pensou a menininha dos olhos de amêndoa, aliás, espantados? As gentes antigas diziam que só se espanta quem quer aprender. Vocês agora, perguntam e muito bem e o gatinho? De momento, apenas sei dizer, que o gatinho cresceu. Ficou grande, bonito, estiloso e delicado, conhecido nas redondezas, que elas são enormes, maior que o mundo conhecido, por senhor gato, não fiquem pensando que era senhor de terras, um chefe, um monarca vestido ao estilo João V, era, todavia, o aristocrata da rua, feito de nobre metal, sempre vistoriando os sacos de plástico cheios de compras.
O senhor gato, quando era só gatinho, lembram-se?
Pedrobala
Que-luz é esta, no dia 11 de Dezembro do ano com alguma graça de 2009?
Enfim
sexta-feira, novembro 13, 2009
A propósito do livro "Caim" de José Saramago
Há muito, que penso no deus bíblico, Jeová de seu nome, que parece querer dizer "Eu Sou". Nas suas contradições e maluqueiras, representará o bem? E Lúcifer, o anjo mais belo e inteligente da corte divina representará o mal? O que dizer do deus de Abraão, quando ordena que sacrifique o seu filho, como grande prova de amor, crença, fidelidade, lealdade ou o que quer que seja. Ou nos célebres pactos entre deus e Lúcifer, porque eles conversam e fazem apostas, sendo objectos das suas apostas o ser humano. Coitado de Job.
"Eu Sou" o outro não-é: versão de um feudalismo pró celestial, senhor, vassalo e o servo da gleba obediente, porque não é livre. Se disser a uma criança, entra nessa despensa cheia de chocolates, mas não podes comer nenhum, porque é proíbido. Estarei a ser justo?Desde Giovanni Papini, escritor italiano, com o seu pequeno grande livro "O Diabo" ou "A Neurose Cristã" de Dr. Pierre Solignac ou ainda "Porque não sou cristão", de Bertrand Russel tenho questionado esse deus de Adão e Eva, Noé, Abraão, Moisés, etc., pensando dizia: ele é mau, porque é vingativo, disparatado e maníaco.
Observem esta passagem do livro "Porque não sou cristão", dize o seu autor: "Abordar a questão da existência de Deus, eis uma grande e séria questão, e se me determinasse tratá-la de modo adequado, seria necessário reter-vos aqui até à chegada do reino de Deus. Por isso, espero que me desculpareis por a tratar de um modo um tanto sumário. Sabeis, naturalmente, que a Igreja Católica erigiu em dogma que a existência de Deus pode ser demonstrada pela via racional. É um dogma assaz curioso mas não deixa de o ser. Tornou-se necessário introduzi-lo porque em determinado momento os livre-pensadores adoptaram o hábito de declarar que existiam este e aquele argumentos racionais contra a existência de Deus e que a aceitação dessa existência era matéria de fé. Os argumentos e as razões foram expostos minuciosamente e a Igreja Católica entendeu que lhes devia pôr um ponto final. E adoptou mais esse princípio de que a existência de Deus pode ser demonstrada pela simples via racional, e ela própria estabeleceu o que considerava como argumentos dessa prova. São sem dúvida bastantes, mas contentar-me-ei em invocar alguns…"
E concluindo diz o mesmo autor:
"Todo o conceito de Deus é tirado do velho despotismo oriental. É uma concepção absolutamente indigna de homens livres. Quando sei de pessoas que se curvam nas igrejas confessando-se miseráveis pecadoras, e tudo o mais, tenho isso como desprezível, incompatível com o respeito que devemos a nós próprios. Devemos, ao contrário, olhar o mundo francamente e no seu rosto. Devemos melhorar este mundo e, se ele não é tão bom quanto desejávamos, que ele seja melhor do que o construído no passado pelos outros. Um mundo à nossa medida exige saber, bondade e coragem; não exige uma intensa nostalgia do passado, nem o acorrentar da livre inteligência aos entraves impostos pelas fórmulas que os antigos ignorantes inventaram. O que uma perspectiva do futuro desligada do terror exige é uma visão clara das realidades. Que exige a esperança no futuro não é o refluxo constante a um passado morto, que, estamos certos, será em muito ultrapassado pelo futuro que a nossa inteligência é capaz de criar."
José Saramago, ajudou-me a esquematizar e sintetizar, com acutilante inteligência e ironia, o meu pensamento sobre esse deus bíblico. Viagem surrealista, misto da gaivota Fernão Capelo, estória de liberdade, aprendizagem e amor e Alice no País das Maravilhas, em que Caim não caiu numa toca e utilizando um burro como cápsula do
espaço/tempo movimenta-se pelas folhas do Antigo Testamento.
E Cristo, o operário, talvez místico, talvez crente nesse deus, todavia, não tinha sentimentos vingativos, pelo contrário, foi solidário e divulgou a solidariedade, amou e difundiu o reino do amor, tanto que amou Madalena. Não era rancoroso, foi um libertador de um mundo injusto. Esse mundo inadequado criaram nele a revolta. Será, que Cristo deixou de acreditar no seu pai, no momento da crucificação? Será, que Cristo pensaria que o pai seria como ele? Afinal, o cordeiro foi ele e foi ele mais um dos sacrifícios exigidos por um senhor, senil, que perdeu o contacto com a realidade, dono de uma soberania bipolar.
Concluindo com Saramago: "a única coisa que se sabe de ciência certa" é que "o homem e deus discutiram" e que "a discutir estão ainda."
"Deus meu, meu Deus, repara em mim, porque me abandonaste?
Eli,Eli, lama sabachthani.
13 de Novembro de 2009
João Mariano
quinta-feira, outubro 29, 2009
SUBLIMAÇÃO
Última Súplica
Agora que abutres
pairam em meu redor
e hienas me espreitam
os passos contados
Deixe-me
ao menos
na paz infernal
da minha loucura frustrada
livremente vaguear
por caminhos sonhados
de braço dado com meu cadáver.
Dante Mariano, in "No Reino de Caliban", p. 250.
Lenço branco
Hoje, a memória antiga e implícita
lançou sua lava!
Porém, tomamos consciência
do vulcãozinho que nos rodeia.
Não estou solidário com a vossa dor
porque sinto a dor dentro de mim.
Guardo as lágrimas
num lenço branco.
As lágrimas não são minhas
mas o lenço branco é.
João Mariano
No grito da madrugada
No grito da madrugada
rompem solares raios
simplesmente por em si e em si
transportarem a luz que contêm.
Se ela se erguesse
eu me ajoelhava.
Nem ela se ergueu, nem eu me ajoelhei.
Que ventem os solares ventos
neste translúcido rodar
em volta do próprio eixo
aqui estarei
satélite Sputnik em órbita
tal-qualmente a cadela Laica
a primeira revolução
no éter cristalino do céu.
Que as ondas toquem os címbalos
o morto que dorme acorda
esquece a ordem do pai
faz amor ao amanhecer
e o tempo passando passou.
Ela fugiu
a guitarra uivou.
Exactamente como a loba:
chora canta abraça
ama cheira fica
toca o relógio cor-de-rosa
não é floyd nem money
estado entre o sólido e o gasoso
naftalina?
Se ela se erguesse
eu me ajoelhava.
Nem ela se ergueu, nem eu me ajoelhei.
João Mariano
quarta-feira, outubro 28, 2009
Um título
O que é um título, uma letra, um cheque, um cargo. A rua chegou sem títulos, os jornais ficaram nas redacções. Amanhã à noite logo se vê.
terça-feira, maio 05, 2009
Take
Take one
and a one
and a two
and a three
Ei-lo de novo
e de novo
na força bruta
Tudo a propósito
de um recadinho
vindo do céu
Take two
and a one
and a two
and a three
Celeste vivia no recadinho
mas o céu
não era para a bruta força
Take three
and a one
and a two
and a three
Recadinho numa folha de papel
tenho saudades
não da bruta força não
João Mariano
quarta-feira, abril 15, 2009
Carta Aberta
João, chamado Mariano, pela vontade de seus pais, Laura e Gabriel, dirige-se a V. Ex.ª com a devida vénia e desde já, deseja, que a paz e a sabedoria estejam entre vós.
Pois bem, esta humilde missiva serve para lhe colocar as seguintes questões e formular um pedido:
1- Vivo num país, que não é tropical, mas encontra-se em autêntico caos, não no sentido filosófico do termo, como o princípio do Universo, mas no sentido de balbúrdia, desordem, confusão. Vejamos: a) no meu país os banqueiros e gestores desonestos quando vão à falência o Estado dá-lhes a mão, por outro lado, quando uma pequena empresa se encontra em maus lençóis não há solução; b) os professores estão zangados, os enfermeiros fazem greve, não existem médicos nos Centros de Saúde e a Justiça e os Tribunais não funcionam; c) em suma: toda a gente reclama, o povo faz manifestações, o desemprego é como piolho em costura, veja bem, dizem que a última contou com 200 000 manifestantes.
2- Há dias, Senhor-Engenheiro, contaram-me um caso de uma certa investigação, aqui entre nós, com a duração de quatro anos, leu bem, quatro anos, continuando, parece-me que o investigado será o Primeiro-Ministro do meu país, que terá sido em outros tempos, Ministro do Ambiente. Pois bem, os investigadores vieram a publico afirmar que sofreram pressões, mas não disseram que tipo de pressões, nem quem os pressiona. Como calcula ficámos que nem baratas tontas e zonzas. Mas para tranquilizar o nosso espírito (sabe o Xanax tem tido uma saída espectacular, é mais barato que um complexo vitamínico) o chefe dos investigadores anunciou com pompa e circunstância, que nada daquilo era verdade, estava tudo na santa paz de deus, que de pressão precisavam os pneus dos carros. De imediato, fui verificar a pressão dos quatro pneus do meu carro. Todavia, e, para que dúvidas não se suscitassem iria investigar os investigadores. Foi uma alegria Senhor-Engenheiro, ouvir o chefe dos investigadores, pois a graça é tanta na tristeza deste país.
3- Como V. Ex.ª está sempre a sorrir, olhe quando ligo a televisão e vejo a sua cara de alegria exprimindo um sentimento de benevolência para com os seus adversários, todo o peso e desespero que carrego comigo desaparece, mas como estava a dizer, a propósito do seu sorriso, gostaria muito de ir viver para o seu país, pois, conforme lhe disse, o meu país encontra-se numa autêntica balbúrdia. A título de exemplo dê uma espreitadela neste texto.
«O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»
Isto, Senhor-Engenheiro-José Sócrates, é datado de 1871, tendo sido elaborado através do punho viril e lúcido de Eça de Queirós, no primeiro número de "As Farpas". Pois é: 138 anos, parece que foi hoje.
Como vê Senhor-Engenheiro o meu país está perdido, naufragado, esquecido, condenado por uma doença muito antiga: imbecilidade e inércia. Desculpe este desabafo Senhor-Engenheiro, tenho tanta precisão de me expandir.
Que a graça e o amor que tem por si esteja connosco, regozijai-vos, sede perfeito, sede de um mesmo parecer. Aleluia, todos os santos vos saúdam.
Sem outro assunto de momento, fico à espera, que V. Ex.ª me dê notícias convidando-me para ir viver para o seu país.
Ano da Graça de 2009 D.C.
E.D.
O Cidadão João Mariano
Post Scriptum: Junto um mapa-múndi, com um X no meu país, caso V. Ex.ª tenha dificuldade em encontrá-lo.


