quinta-feira, agosto 21, 2014

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Morreu o Comandante da minha Infância


“Aprendemos a querer-te, na tua querida presença… seguiremos em frente.”

 

Morreu o Comandante da minha Infância

Meu irmão disse:

Sofro só, só não

uma estrela surgiu

no negro manto de cetim.

Neste entretanto penso:

Entre o sofrimento

e a solidão

existe um piscar de luz

uma Lua quente

Pitonisa de redobradas madrugadas.

João Mariano

Édito para habilitação aos subscritores falecidos


Eu, assinante, ao enganar a vida,

depois de morto declaro:

não precisar da minha superfície inferior ao chão

 

Eis-me aqui de pé

recusando cumprir esta ordem judicial

publicada nos melhores jornais

da minha querida região!

 

Bela é a tua face

e no inquieto navio sem mar

sinto o ritmo dos teus passos

Deixa-me sonhar o teu sonho

tamarindeiro austero.

João Mariano

quinta-feira, junho 27, 2013

Riacho-Sem-Nome

Para uma menina que se chama Sofia Margarida
 
Perto da minha casa existe um riacho. Não sei o seu nome. O riacho perto da minha casa vai ao encontro do rio Jamor e o rio Jamor corre para chegar a um rio muito grande chamado Tejo. Vocês sabem o que é um afluente? É um rio que se vai juntar a outro rio.
Como não sei o nome do riacho, vou chamá-lo Riacho-Sem-Nome. Aqui há tempos um vizinho contou-me, na época ele era criança, que tomava banho, pescava e brincava com outros meninos no Riacho-Sem-Nome. Depois iam beber leite fresquinho fornecido por umas vacas que por ali pastavam.
Conto-vos este pequeno relato, porque quando conheci o Riacho-Sem-Nome, ele parecia um esgoto, toda a gente deitava lixo para as suas águas e as fábricas poluíam o Riacho-Sem-Nome, contaminando-o, matando os peixes. Aqui entre nós, as águas não se poluem sozinhas. O meu vizinho e os outros meninos nunca mais foram brincar com o Riacho-Sem-Nome. Ele tornou-se um riacho muito triste e sombrio.
Certo dia, as mesmas pessoas, que sujaram e estragaram o Riacho-Sem-Nome, resolveram limpá-lo e deixaram de poluir as suas águas. Por isso, todos os anos, começaram a aparecer uns patos de nome Pato real.
O Riacho-Sem-Nome ficou mesmo feliz e contente, porque os patos ao verem as águas limpinhas, durante os meses de Março e Junho, isto é, na primavera, resolveram construir as suas casinhas nas suas margens. Nesses meses, os patos e as patas começam a namorar e acasalam. As mães patas vão para os seus ninhos e põe os ovos. Depois é vê-las a passear os seus filhinhos, os patinhos, entre as rochas, debicando aqui, mergulhando ali, com as cabecinhas dentro de água, procurando pequenas plantas e pequenos sapos.
Os patos machos têm uma cabeça verde e um anel branco no pescoço, as costas, são cinzentas e o peito de um tom castanho-escuro. Estas cores tornam-se mais fortes quando é o período de acasalamento, ficam ainda mais bonitos, para chamar a atenção de uma pata e conquistar o seu coração. As fêmeas têm um corpo de tom castanho claro e geralmente são mais pequenas que os machos.
Todas as noites, quando as suas águas correm por entre as pedras e as árvores, o Riacho-Sem-Nome murmura uma musiquinha. Hoje, deixou de ser triste e sombrio, por isso, passei a chamá-lo de Riacho-Sem-Nome em homenagem a todas as águas, riachos, rios e mares, que neste momento, estão tristes e sozinhos.
 
João Mariano

 

 

quarta-feira, abril 17, 2013

O peixe morre


O peixe morre

com o anzol na boca

gancho, ardil

febril com a sua isca

com todos ou não

frita o fígado

órgão maior

secretor da bílis e do fel

há quem os tenha maus

como as naus

que foram ao encontro do Adamastor

na imaginária linha do horizonte

com dor ou com medo

ou com grande soberba

e prósperos troféus

o capitão com grande fama

de tocar os céus enfrentou-o

tinha disforme e grandíssima estatura

dentadura esverdeada

figura medonha e má

coitado de amor padecia

por castigo foi desterrado

e amarrado com correntes a um penedo

ficou no fim-do-mundo

chorando um choro

entre dois oceanos

de formosa e miserável prisão.

 

João Mariano

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Esta terra não é tua

Esta terra não é tua
Esta terra não te pertence

Regas as tuas sementeiras
com o sangue do teu semelhante
e queres sempre mais sangue
não o ajudas a levantar a carga
que tu determinas
 
Esta terra não é tua
Esta terra não te pertence

A semente que lanças ao chão
degrada quem te rodeia
porque és pequeno e mísero

Sugado pelo teu apetite devorador
como se um louco fosses
soltando faíscas e flechas
exangue permanece o teu irmão
enfraquecido no catre que lhe subtraíste.

Esta terra não é tua
Esta terra não te pertence.
 
João Mariano

“Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: Ame o seu próximo como a si mesmo.” – Cristo, o Operário
 

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Sou pastor de processos


Sou pastor de processos

Pastoreio-os pelas íngremes colinas

da Casa da Justiça

 

Sou pastor de processos

Alimento-os com papel e tinta

ficam lãzudos e luzidios

depois, gordos, com consistência xaroposa

 

Sou pastor de processos

Apascento-os

deleitando-me com a sua marcha

quase mórbida, com o seu decurso lânguido

 

Não curo almas

Sou guardador de processos

que é acordado de manhã

por uma lei maior e inacessível

em perfeita conformidade

com os donos das íngremes colinas.

 

João Mariano

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Retorno


Posto o pensamento nela,
Porque a tudo o amor cativa,
Cantava e cantarei
Em louvação por ela.
Nisto andava eu
No meu desejo enganado,
Perguntando a quem passa:
- Vistes lá o meu amor?

Meus olhos no chão pregados,
Que, do chorar já cansados,
Algum descanso lhes dá.
Desta maneira
Suspendo de quando em vez
Minha dor

Pois seus olhos d’água,
Querem que a dor se abrande
Secando minhas lágrimas.

 

João Mariano

 

quarta-feira, novembro 21, 2012

Questão


“AS armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.” – Lusíadas, Camões

Plágio Camoniano

Companheiras e companheiros lembram-se
das memórias gloriosas
daqueles que foram dilatando
as gordurosas terras viciosas
e emigraram pra outros mundos
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei económica libertando.


Cantando espalharei por toda parte,
Viva o engenho e arte!

A fama das vitórias que tiveram
Eu canto no peito aberto à ternura o ilustre Lusitano,
A quem Cavaco, Santana, Barroso e Passos obedecem
Cesse tudo: Merkel canta,


Outro valor mais alto se alevanta
Se tu te alevantas eu me ajoelho.
Foi de mim, que vosso rio
alegremente eleito nasceu
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo diferente
Por que de vossas águas

nasce nova fogueira

Dai-nos uma fúria grande e sonorosa,
E não tão agreste e ruda e belicosa,
Que o vosso gesto tenha a luz e a cor
Será que tão sublime preço cabe em verso?

Passos nascido da segurança
Da antiga liberdade,
E não menos do certíssimo caminho
Do enorme aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo amor da Merkel
lanças,
um Gaspar como se um Deus fosse,

que todo o mande,
Fatal na nossa idade.

Vós, tenro e novo ramo florecente
Perdendo cabelo, todavia,
De uma árvore de Cristo amada vindes

Pois, betinho sois
e tu já viste a cruz que o povo tomou
bebendo o licor do santo Rio?

João Mariano




 

quinta-feira, outubro 18, 2012

Obrigado senhores


Obrigado senhores

pelo desespero que ofereceis

pelas ruas vazias de esperança

pelos discursos bondosos

anunciando o aumento dos impostos

 

Obrigado senhor-dos-passos

por esta devoção em crucificar-nos

em colocar-nos neste calvário

pela vontade de ajudar a austeridade

pelas noites em rectilínio pensamento

procurando transparentes soluções

em nossos corações

 

Obrigado senhores

pois vós sois

a nossa subtil consciência

pelo voto na urna depositado

depois venham ungir o nosso corpo

com óleo e ervas aromáticas

antes que encontrem o túmulo vazio

Aleluia!

 
João Mariano

terça-feira, julho 17, 2012

Fluxo

Fluxo
mar interno entre as mornas cochas
no secreto momento
em que sentimos o movimento
da maré enchente

Renova o fluxo
desagua dentro de ti
Plexus!

Pedrobala

terça-feira, abril 10, 2012

Ontem um índio tocou

Ontem um índio tocou
nas flautas tinha  as rosas
dos teus lábios

O sóbrio Convento não sabia
o que fazer com as riquezas ameríndias

Foi entre uma fumaça e um café
uma moeda caiu
no chapéu
do velho índio

O ardente Febo encantado brilhou
o rei sol
na estátua petrificada ficou
no Convento, seu solar, a sua avenida
imaginada ao encontro do mar,
na flauta do índio ela apareceu
deu-me a sua mão
matamos a besta
o ardente Febo adormeceu
e entre nós o ouro surgiu

João Mariano

quarta-feira, março 21, 2012

O vrummmmmm das fábricas que não existe

O vrummmmmm das fábricas que não existe
os motores que não roncam, porque nada produzem

O ui,ui,ai,ai que paira no ar
nas algibeiras vazias
do terceiro estado
desta nação trespassada, arrendada ou vendida?

O toque-toque que se ouve nas portas e nos passos
daqueles que pedindo auxílio
perderam uma construção destinada a habitação
indo à procura de uma cova com fundo

O penhor e a penhora
dos anéis que não têm dedos
este vrummmmmmmmmmm dos aviões
dos comboios e dos autocarros
levando desterrados para terra-longe
porque aqueles que estão nos negócios públicos
assim o dizem, assim o aconselham…

Vrummmmmmmmmm
Ui, ai, ui, ai
Vrummmmmmmmmm…

Não vou por aí, fico por aqui!

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Amor és a razão da minha existência

Amor és a razão da minha existência
Leva-me para terra-longe
Hoje, no sopé do vulcão,
esta força que torna a terra fértil,
imaginei a árida grandeza
das nossas gentes!

terça-feira, janeiro 10, 2012

Corpo desprendido

Amor plural e único.
Concentração dos ventos dispersos.
Uníssono é o sorriso e o sussurro.
Somos um.
Em homenagem a Gabriel, Patriarca e Pai
 
 
Passado o longo mar da tua teimosia
Teu é o porto grande.
Ao fim de àrdua luta partilhada
de luas, de eclipses e viragens
tua é a vitória.

Pois que combateste o bom combate
repousa com orgulho a tua espada,
colhe a vela do teu contentamento,
abraça o teu pilão, agarra a tua enxada
e cria novos sonhos de Futuro.
 
João Mariano

quinta-feira, novembro 24, 2011

Espiral
curva plana
girando em torno do seu polo
ora se afastando
ora se aproximando

Minha linha curva
que não se fecha
vai dando voltas
enroscando-se nas colunas do tempo
sem nunca retoceder...

João Mariano

Espiral

quinta-feira, novembro 17, 2011

Moamba no morro

Moamba no morro
cidade sem forro
no ar pairando 

O cheiro a óleo de dendê e a peixe seco

À sombra de palmeiras e coqueiros
desfilam na avenida
a riqueza facilmente despojada
aos pés-descalços da vida
perdidos nos bolsos vazios

Moamba no morro
cidade sem escolha
no ar permanecendo

O caminhar requebrado da mulata chinelando

quinta-feira, setembro 08, 2011

Expiação

Assombraram dentro de mim
as marés
e os longínquos ventos
do tempo passado.

Todavia,
o mar é azul
o teu sorriso cor-de-rosa
e o teu meigo olhar
na noite fria
anuncia um beijo doce e quente

Quero expiar a minha culpa
quero cumprir a minha penitência
purificar minh’alma
lavar o meu corpo
nas lágrimas que escorreram pela tua face

Quero tirar a opressão do teu choro
ecoando no meu cérebro:

Eis a minha culpa!

terça-feira, julho 19, 2011

A Maneira

Estamos aqui reunidos para decidir a maneira. Todos nós sabemos a maneira, mas não sabemos como lá chegar.


O que tenho para transmitir é sugerir o caminho para a maneira. Após uma análise cuidada, dei conta que o caminho é sinuoso e a maneira encontra-se para além desta sinuosidade. Teremos, pois, de descobrir um ponto de partida. Aqui, o problema é deveras complexo, porque torna-se visível, a olho nu, outros pontos, nomeadamente, o ponto e vírgula e os dois pontos, para não mencionar o ponto parágrafo. Este último é muito importante, uma vez que, poderemos dar um salto qualitativo para atingir a maneira.

O ponto final é de afastar de forma liminar. Vejamos: o ponto final, como o próprio ponto indica, é o fim do caminho, significa, portanto, se encontrarmos a maneira, encontraremos o ponto final.

A primeira conclusão será esta: o ponto final, nunca poderá ser o ponto de partida para alcançarmos o que pretendemos, a maneira.

O ponto e vírgula tem pausas, é urgente saber a maneira, estar com ela intimamente, com estas pausas, teremos de efectuar orações e separar as partes do nosso caminho. A maneira vai-se perdendo nos horizontes de todos os horizontes.

Os dois pontos indicam os primeiros sintomas de um acontecimento. Já não é mau, porque é um sinal precursor do caminho que encorajadoramente insistimos em fazer, atingir a maneira.

A segunda conclusão será esta: os dois pontos não são um ponto de partida para atingir a maneira, porque trata-se, só e apenas, de um sintoma, de um sinal enviado pela maneira.

Quanto ao ponto parágrafo é reconfortante saber, que quando acaba uma coisa, começa outra. Mas é aterrorizante perceber que para começar essa outra, devemos acabar alguma coisa. Por outro lado, o símbolo para parágrafo é representado por dois “esses” unidos. Não será conveniente separar o que está unido. O parágrafo, é pois, o precursor da mudança de linha e do espaço. Por isso realcei, há pouco, a sua importância para atingir a maneira. O ponto parágrafo tem um porém: está em constante mutação, tanto na sua linha, como no espaço que ocupa.

Como atingir a maneira, se ainda não encontramos o ponto de partida? Como poderemos partir, se não sabemos como lá chegar?

A terceira conclusão será esta: a descoberta do ponto é fundamental para atingirmos a maneira.

Queluz, 19 de Julho de 2011

João Mariano