sexta-feira, novembro 13, 2009

A propósito do livro "Caim" de José Saramago

Há muito, que penso no deus bíblico, Jeová de seu nome, que parece querer dizer "Eu Sou". Nas suas contradições e maluqueiras, representará o bem? E Lúcifer, o anjo mais belo e inteligente da corte divina representará o mal? O que dizer do deus de Abraão, quando ordena que sacrifique o seu filho, como grande prova de amor, crença, fidelidade, lealdade ou o que quer que seja. Ou nos célebres pactos entre deus e Lúcifer, porque eles conversam e fazem apostas, sendo objectos das suas apostas o ser humano. Coitado de Job.

"Eu Sou" o outro não-é: versão de um feudalismo pró celestial, senhor, vassalo e o servo da gleba obediente, porque não é livre. Se disser a uma criança, entra nessa despensa cheia de chocolates, mas não podes comer nenhum, porque é proíbido. Estarei a ser justo?Desde Giovanni Papini, escritor italiano, com o seu pequeno grande livro "O Diabo" ou "A Neurose Cristã" de Dr. Pierre Solignac ou ainda "Porque não sou cristão", de Bertrand Russel tenho questionado esse deus de Adão e Eva, Noé, Abraão, Moisés, etc., pensando dizia: ele é mau, porque é vingativo, disparatado e maníaco.

Observem esta passagem do livro "Porque não sou cristão", dize o seu autor: "Abordar a questão da existência de Deus, eis uma grande e séria questão, e se me determinasse tratá-la de modo adequado, seria necessário reter-vos aqui até à chegada do reino de Deus. Por isso, espero que me desculpareis por a tratar de um modo um tanto sumário. Sabeis, naturalmente, que a Igreja Católica erigiu em dogma que a existência de Deus pode ser demonstrada pela via racional. É um dogma assaz curioso mas não deixa de o ser. Tornou-se necessário introduzi-lo porque em determinado momento os livre-pensadores adoptaram o hábito de declarar que existiam este e aquele argumentos racionais contra a existência de Deus e que a aceitação dessa existência era matéria de fé. Os argumentos e as razões foram expostos minuciosamente e a Igreja Católica entendeu que lhes devia pôr um ponto final. E adoptou mais esse princípio de que a existência de Deus pode ser demonstrada pela simples via racional, e ela própria estabeleceu o que considerava como argumentos dessa prova. São sem dúvida bastantes, mas contentar-me-ei em invocar alguns…"

E concluindo diz o mesmo autor:

"Todo o conceito de Deus é tirado do velho despotismo oriental. É uma concepção absolutamente indigna de homens livres. Quando sei de pessoas que se curvam nas igrejas confessando-se miseráveis pecadoras, e tudo o mais, tenho isso como desprezível, incompatível com o respeito que devemos a nós próprios. Devemos, ao contrário, olhar o mundo francamente e no seu rosto. Devemos melhorar este mundo e, se ele não é tão bom quanto desejávamos, que ele seja melhor do que o construído no passado pelos outros. Um mundo à nossa medida exige saber, bondade e coragem; não exige uma intensa nostalgia do passado, nem o acorrentar da livre inteligência aos entraves impostos pelas fórmulas que os antigos ignorantes inventaram. O que uma perspectiva do futuro desligada do terror exige é uma visão clara das realidades. Que exige a esperança no futuro não é o refluxo constante a um passado morto, que, estamos certos, será em muito ultrapassado pelo futuro que a nossa inteligência é capaz de criar."

José Saramago, ajudou-me a esquematizar e sintetizar, com acutilante inteligência e ironia, o meu pensamento sobre esse deus bíblico. Viagem surrealista, misto da gaivota Fernão Capelo, estória de liberdade, aprendizagem e amor e Alice no País das Maravilhas, em que Caim não caiu numa toca e utilizando um burro como cápsula do

espaço/tempo movimenta-se pelas folhas do Antigo Testamento.

E Cristo, o operário, talvez místico, talvez crente nesse deus, todavia, não tinha sentimentos vingativos, pelo contrário, foi solidário e divulgou a solidariedade, amou e difundiu o reino do amor, tanto que amou Madalena. Não era rancoroso, foi um libertador de um mundo injusto. Esse mundo inadequado criaram nele a revolta. Será, que Cristo deixou de acreditar no seu pai, no momento da crucificação? Será, que Cristo pensaria que o pai seria como ele? Afinal, o cordeiro foi ele e foi ele mais um dos sacrifícios exigidos por um senhor, senil, que perdeu o contacto com a realidade, dono de uma soberania bipolar.

Concluindo com Saramago: "a única coisa que se sabe de ciência certa" é que "o homem e deus discutiram" e que "a discutir estão ainda."

"Deus meu, meu Deus, repara em mim, porque me abandonaste?
Eli,Eli, lama sabachthani.


13 de Novembro de 2009

João Mariano




quinta-feira, outubro 29, 2009

SUBLIMAÇÃO

Última Súplica


 


 

Agora que abutres

pairam em meu redor

e hienas me espreitam

os passos contados


 

Deixe-me

ao menos


 

na paz infernal

da minha loucura frustrada

livremente vaguear

por caminhos sonhados

de braço dado com meu cadáver.


 

Dante Mariano, in "No Reino de Caliban", p. 250.


 


 


 

Lenço branco


 

Hoje, a memória antiga e implícita

lançou sua lava!

Porém, tomamos consciência

do vulcãozinho que nos rodeia.

Não estou solidário com a vossa dor

porque sinto a dor dentro de mim.


 

Guardo as lágrimas

num lenço branco.

As lágrimas não são minhas

mas o lenço branco é.


 

João Mariano


 


 


 

No grito da madrugada


 

No grito da madrugada

rompem solares raios

simplesmente por em si e em si

transportarem a luz que contêm.


 

Se ela se erguesse

eu me ajoelhava.

Nem ela se ergueu, nem eu me ajoelhei.


 

Que ventem os solares ventos

neste translúcido rodar

em volta do próprio eixo

aqui estarei

satélite Sputnik em órbita

tal-qualmente a cadela Laica

a primeira revolução

no éter cristalino do céu.


 

Que as ondas toquem os címbalos

o morto que dorme acorda

esquece a ordem do pai

faz amor ao amanhecer

e o tempo passando passou.


 

Ela fugiu

a guitarra uivou.

Exactamente como a loba:

chora canta abraça

ama cheira fica

toca o relógio cor-de-rosa

não é floyd nem money

estado entre o sólido e o gasoso

naftalina?

Se ela se erguesse

eu me ajoelhava.

Nem ela se ergueu, nem eu me ajoelhei.


 

João Mariano

quarta-feira, outubro 28, 2009

Um título

O que é um título, uma letra, um cheque, um cargo. A rua chegou sem títulos, os jornais ficaram nas redacções. Amanhã à noite logo se vê.

terça-feira, maio 05, 2009

Take

Tens uma trave à frente dos teus olhos e vês o pó que existe na minha pestana (Ditado Popular).



Take one
and a one
and a two
and a three
Ei-lo de novo
e de novo
na força bruta

Tudo a propósito
de um recadinho
vindo do céu

Take two
and a one
and a two
and a three
Celeste vivia no recadinho
mas o céu
não era para a bruta força

Take three
and a one
and a two
and a three
Recadinho numa folha de papel
tenho saudades
não da bruta força não

João Mariano

quarta-feira, abril 15, 2009

Carta Aberta

Exm.º Senhor-Engenheiro-José Socrátes
1.º- "Examinai-vos a vós mesmos;
2.º- Provai-vos a vós mesmos." - II Aos Coríntios, 13 - 5.

João, chamado Mariano, pela vontade de seus pais, Laura e Gabriel, dirige-se a V. Ex.ª com a devida vénia e desde já, deseja, que a paz e a sabedoria estejam entre vós.
Pois bem, esta humilde missiva serve para lhe colocar as seguintes questões e formular um pedido:

1- Vivo num país, que não é tropical, mas encontra-se em autêntico caos, não no sentido filosófico do termo, como o princípio do Universo, mas no sentido de balbúrdia, desordem, confusão. Vejamos: a) no meu país os banqueiros e gestores desonestos quando vão à falência o Estado dá-lhes a mão, por outro lado, quando uma pequena empresa se encontra em maus lençóis não há solução; b) os professores estão zangados, os enfermeiros fazem greve, não existem médicos nos Centros de Saúde e a Justiça e os Tribunais não funcionam; c) em suma: toda a gente reclama, o povo faz manifestações, o desemprego é como piolho em costura, veja bem, dizem que a última contou com 200 000 manifestantes.

2- Há dias, Senhor-Engenheiro, contaram-me um caso de uma certa investigação, aqui entre nós, com a duração de quatro anos, leu bem, quatro anos, continuando, parece-me que o investigado será o Primeiro-Ministro do meu país, que terá sido em outros tempos, Ministro do Ambiente. Pois bem, os investigadores vieram a publico afirmar que sofreram pressões, mas não disseram que tipo de pressões, nem quem os pressiona. Como calcula ficámos que nem baratas tontas e zonzas. Mas para tranquilizar o nosso espírito (sabe o Xanax tem tido uma saída espectacular, é mais barato que um complexo vitamínico) o chefe dos investigadores anunciou com pompa e circunstância, que nada daquilo era verdade, estava tudo na santa paz de deus, que de pressão precisavam os pneus dos carros. De imediato, fui verificar a pressão dos quatro pneus do meu carro. Todavia, e, para que dúvidas não se suscitassem iria investigar os investigadores. Foi uma alegria Senhor-Engenheiro, ouvir o chefe dos investigadores, pois a graça é tanta na tristeza deste país.

3- Como V. Ex.ª está sempre a sorrir, olhe quando ligo a televisão e vejo a sua cara de alegria exprimindo um sentimento de benevolência para com os seus adversários, todo o peso e desespero que carrego comigo desaparece, mas como estava a dizer, a propósito do seu sorriso, gostaria muito de ir viver para o seu país, pois, conforme lhe disse, o meu país encontra-se numa autêntica balbúrdia. A título de exemplo dê uma espreitadela neste texto.

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»

Isto, Senhor-Engenheiro-José Sócrates, é datado de 1871, tendo sido elaborado através do punho viril e lúcido de Eça de Queirós, no primeiro número de "As Farpas". Pois é: 138 anos, parece que foi hoje.

Como vê Senhor-Engenheiro o meu país está perdido, naufragado, esquecido, condenado por uma doença muito antiga: imbecilidade e inércia. Desculpe este desabafo Senhor-Engenheiro, tenho tanta precisão de me expandir.

Que a graça e o amor que tem por si esteja connosco, regozijai-vos, sede perfeito, sede de um mesmo parecer. Aleluia, todos os santos vos saúdam.
Sem outro assunto de momento, fico à espera, que V. Ex.ª me dê notícias convidando-me para ir viver para o seu país.

Ano da Graça de 2009 D.C.

E.D.
O Cidadão João Mariano

Post Scriptum: Junto um mapa-múndi, com um X no meu país, caso V. Ex.ª tenha dificuldade em encontrá-lo.

quarta-feira, março 11, 2009

Ela não foi

Ela não foi
uma primavera de mulher
só com autorização era
Ela e a vassoura
na santa ordem das tradições
permaneciam rainhas do lar doméstico

Depois,
na praça pública
Ela queimou soutiens
ena pá! mulher de vida duvidosa
dama do lupanar
favorita sem lugar
cigarro aceso
nos lábios vermelhos de batom

E hoje?
Comemora-se um animal raro?
Quem tem medo do órgão glandular
que segrega o leite materno?
Quem soltou os colhões*
dos calções que os prendem?
Quem libertou as ilhargas
e sacudiu o seu protector?

Queluz, 11 de Março de 2009
João Mariano

*(Do latim colèu-, «testículo», pelo latim vulgar coleóne-, «id.»)

quarta-feira, janeiro 21, 2009

The Great Dictator - speech

http://www.youtube.com/watch?v=5IvPIWzQcUY&NR=1

Luzes da Ribalta - Charlie Chaplin

http://www.youtube.com/watch?v=kC1zbrFTyuw

Ne me quitte pas - Jacques Brel

http://www.youtube.com/watch?v=kZSAkCdLzkg

Chama e Fumo

Amor - chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gostoso e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas... tem de ser...
Amor?... - a chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...

Manuel Bandeira, Poeta do Recife, a Veneza do Brasil

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Menina-do-Olho

Iris
flor rosa mulher
noite madrugada tardinha
e eu sem querer
fiquei na sua entrelinha
Iris
olhar de amêndoa
flor rosa mulher
que tanto me atordoa
agora neste entardecer
Iris
flor rosa mulher
este bem-querer
plantado no meu peito.

João Mariano

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Homenagem a Gabriel Mariano

LATITUDES n° 16 - décembree 2002 49
No n° 12 de Latitudes, de
Setembro de 2001, prestámos
nesta revista uma
simbólica homenagem a Dante
Mariano. Nessa altura, Gabriel
Mariano, o irmão mais velho, embora
o seu estado de saúde ser já preocupante,
quis trazer-nos alguns testemunhos
sobre os vários combates
em que participou o seu irmão
Dante e falar do seu espólio literário.
Acontece, porém, que acabamos
de receber a notícia de que o
Gabriel Mariano também veio a
deixar o mundo dos vivos no dia 18
de Fevereiro do ano em curso em
Queluz, Portugal e que o corpo foi
transladado para Cabo Verde, precisamente
Mindelo, São Vicente e foi
a enterrar no dia 25 do mesmo mês,
depois de estar em câmara ardente
na Câmara Municipal de São
Vicente, onde o presidente da
Câmara, convocou uma assembleia
extraordinária para exprimir em seu
nome e no do Município o reconhecimento
dos caboverdianos por
tudo aquilo que fez para a cultura
caboverdiana e em defesa da nossa
dolorosa emigração. Ainda usaram
da palavra Onésimo Silveira, actualmente
embaixador de Cabo Verde
em Portugal e Francisco
Mascarenhas, jornalista e antigo
colaborador da revista Claridade. A
nossa revista Latitudes, na sua ambição
de melhor servir a lusofonia,
convidou algumas pessoas que o
conheceram a testemunhar e a
repensar a sua obra.
Não sabemos se devemos primeiramente
falar do folclorista, do
autor da célebre morna Sina de
Cabo Verde, cantada em todos os
lugares da caboverdianidade, do
homem que foi ao teatro para melhor
sentir a alma do seu povo com
o seu humor e a sua sabedoria
popular, do contista e do poeta que
cantou Jom Cabafume, herói da baía
do Porto Grande, ou do Capitão
Ambrósio, “filho das Ilhas, coração
do povo”, que com a sua bandeira
negra defendeu e conduziu os
escorraçados da fome a escrever
uma página inesquecível da história
de Cabo Verde, ou ainda o ensaísta
que procura inventar Cabo Verde
do suor dos seus filhos, nascidos
das encruzilhadas de muitas culturas
e muitas raças.
Oriundo duma família de
homens de cultura, era filho do
poeta João Mariano e sobrinho de
Baltasar Lopes, fundador da revista
Claridade, em 1936, e autor do
romance Chiquinho que conta a
saga dos caboverdianos forçados a
emigrar para construir Cabo Verde
pelo Mundo, a quem votava um
grande respeito e amizade. Gabriel
Mariano conhecia de perto todas as
ilhas, por ter de acompanhar o pai
nas suas atribuladas funções de funcionário
público, caso ainda raro
nos nossos políticos e intelectuais.
Começou as actividades culturais no
Liceu Gil Eanes de São Vicente, associado
ao Jorge Pedro Barbosa (filho
do poeta Jorge Barbosa e actualmente
nos Estados Unidos da
América). Foi autor de várias peças
de teatro e deixou o seu nome ligado
ao Grémio Recreativo Castilho,
em São Vicente, com a peça Os
Clandestinos no Céu, de que
Valdemar Pereira nos dará o testemunho.
Compositor, associado a
Jacinto Estrela, é autor de vários textos
de mornas e sambas e em especial
da morna A Sina de Cabo Verde,
que foi gravada pela primeira vez
em 1966 pelo exímio cantor Bana,
acompanhado pelo conjunto A Voz
de Cabo Verde, numa edição da
Casa Silva, em Roterdão. No Boletim
de Cabo Verde, nos anos cinquenta,
publicou contos, ensaios e poemas,
HOMENAGEM/HOMMAGE
Homenagem
a Gabriel Mariano
In Memoriam Gabriel Mariano
Luiz Silva
50 LATITUDES n° 16 - décembre 2002
tanto em português como em crioulo,
tanto na variante de barlavento
como de sotavento.
Em 1951, vai para Portugal a fim
de seguir os estudos de direito. Em
Portugal participa nas actividades
da Casa dos Estudantes do Império;
colabora no Suplemento Cultural de
Cabo Verde; escreve poesias e
contos no Boletim de Cabo Verde e
reserva, devido à repressão da Pide,
para publicação posterior, o poema
Capitão Ambrósio, a que já fizemos
referência, e que foi trazido para
o exterior pelo professor Alfredo
Margarido; e participa também
activamente nos Colóquios
Caboverdianos organizados, em
1958, por Nuno Miranda e
Manuel Ferreira, com um texto
que guarda ainda a sua importância
intitulado Do Funco ao
Sobrado ou o Mundo que o
mulato criou. Completos os estudos
de direito, foi nomeado
Conservador dos Registos em
São Tomé e Príncipe, onde viveu
na pele e no coração o drama
dos serviçais caboverdianos nas
roças, tendo escrito vários poemas
a denunciar a situação de
semi-escravatura dos caboverdianos.
Regressou a Cabo Verde
como Conservador dos Registos,
em 1963, na cidade da Praia e
dinamizou a vida desportiva e
cultural praiense durante mais
de dois anos. Defensor intransigente
da língua caboverdiana (o
crioulo de Cabo Verde) foi transferido
compulsivamente para a Ilha de
Moçambique por ter afirmado numa
conferência, em Santa Catarina -
Santiago, que “se estudamos o latim
que é uma língua morta porque não
estudar o crioulo que é uma língua
viva?”. Ao deixar Cabo Verde publica
o livro de poemas Doze Poemas
de Circunstâncias, com capa do
Jaime Figueiredo. Mais tarde, será
de novo transferido para o Sul de
Angola, mas regressa a Cabo Verde
após a Independência. Inconformado
com o regime do partido
único e com uma justiça dependente
do Partido, segue mais tarde para
Portugal, onde reintegra os serviços
de Justiça, sendo precisamente juiz
em Sintra.
Na peugada do tio, Baltasar
Lopes, considerou sempre o mulato
o verdadeiro criador da nação caboverdiana.
O mundo que o mulato
criou não refuta nem o branco e
nem o negro na construção de Cabo
Verde, mas pretende simplesmente
afirmar que a nação é o fruto do
suor dos caboverdianos, e não pertença
exclusiva de negros ou brancos.
Ele tem a consciência da importância
dessa emigração caboverdiana,
que ele pretendeu na invenção e
construção de um Cabo Verde livre,
e que, há mais de dois séculos, após
a abolição da escravatura, se lançou
na aventura pelo Mundo, dando o
seu sangue e corpo para que Cabo
Verde fosse nação antes de ser
Estado. O mulatismo foi e será a síntese
das raças e culturas e a melhor
forma de pôr termo ao racismo e às
sequelas da escravatura e de matar
a branquitude e a negritude extremistas.
Foi o mulatismo que propulsou
uma consciência original e
necessária ao processo, que levou,
em várias etapas, Cabo Verde à
Independência cultural e política. A
ideologia do mulatismo de Baltasar
Lopes e Gabriel Mariano levou muitos
caboverdianos a rejeitar a unidade
orgânica de Cabo Verde com a
Guiné como simples resultado duma
luta conjunta nos maquis da Guiné-
Bissau, ignorando outros factores
essenciais dessa unidade, tanto de
ordem cultural como económica. O
golpe de Estado na Guiné-Bissau,
pondo termo à unidade Cabo Verde-
Guiné, revelou as fraquezas dessa
unidade e, face à realidade actual
na Guiné-Bissau, deveríamos reconhecer
ao menos as injustiças que
foram feitas àqueles que se opuseram
a essa unidade.
A caboverdianidade, como forma
de afirmar a existência duma
nação, não constitui uma negação
da africanidade, devendo,
pelo contrário, ser vista dentro
do quadro da africanidade que
envolve geograficamente Cabo
Verde. Precisamos romper com
o revisionismo histórico e quebrar
o silêncio sobre a questão
da escravatura nos livros de
história e no ensino, para que
Cabo Verde possa melhor situarse
no Mundo. Um provérbio
muito conhecido em África diz
o seguinte: “enquanto os leões
não tiverem os seus próprios historiadores,
as histórias da caça
continuam a glorificar o caçador”.
A problemática das compensações
sobre o tráfico negreiro
e a escravatura foram de novo
levantadas recentemente na
Conferência de Durban e continuam
a dividir as opiniões.
Como se sabe, os primeiros a
receber as compensações da
abolição da escravatura foram os
proprietários de escravos que reclamaram
largas compensações porque
perdiam os escravos; a Alemanha
Federal indemnizou os judeus pelos
crimes cometidos contra o seu povo;
nos Estados Unidos, no final da
Guerra de Secessão, o general
Sherman sugeriu que fosse dado a
cada um dos antigos escravos 20
hectares de terra e uma mula, proposição
que foi rejeitada pelo presidente
Andrew Johnson. Cabo Verde,
sobreviveu da escravatura, das mortandades
e das secas, graças à tenacidade
de todos os caboverdianos e
ninguém ignora o contributo dos
emigrantes.
Cabo Verde, melhor do que qualquer
outro país, está no direito de
pedir compensação ou reparação à
Gabriel Mariano
LATITUDES n° 16 - décembree 2002 51
potência colonial ou às Nações
Unidas pelo sofrimento do seu povo
ainda disperso pelos quatro cantos
do Mundo. Se um cheque não pode
compensar o sangue derramado,
como dizia Abdoulaye Wade, presidente
do Senegal, não podemos
deixar de relembrar mais uma vez,
como foi bem afirmado no
Congresso dos Quadros e do
Movimento Associativo, que os trabalhadores
caboverdianos em São
Tomé e Príncipe, deportados durante
a colonização, continuam na
impossibilidade de poder regressar
a Cabo Verde e sem receber qualquer
compensação da antiga potência
colonial. Os interesses políticos
têm levado os governos sucessivos
de Cabo Verde a não repensar a
história de Cabo Verde, a esquecer
esses compatriotas, cujos sofrimentos
foram largamente denunciados
durante a luta de libertação. Cabo
Verde ignora também todas as actividades
duma organização como a
UNESCO no sentido de considerar a
escravatura como um crime contra
a humanidade; Cabo Verde não participa
no projecto A Rota dos
Escravos, como se nada tivesse a
ver com a escravatura; Cabo Verde,
embora haja vagas nessa organização,
não coloca pessoas com provas
dadas nesse organismo, que
podiam contribuir bastante para o
seu desenvolvimento cultural e
económico.
A sua permanência em Lisboa
não só lhe enriquece no plano teórico
como também solidifica a sua
caboverdianidade. Graças à Casa
dos Estudantes do Império, descobre
alguns ensaístas das Antilhas,
como Frantz Fanon, autor dos livros
Les Damnés de la Terre e Peau noire,
masque blanc, ou ainda o Aimé
Césaire, do Cahier du retour e do
Discours sur le Colonialisme, ou
ainda outros autores ligados à
Présence Africaine, em Paris, que
continuavam a repensar as consequências
da escravidão e o processo
violento da mestiçagem, portador
de frustrações e revoltas. A sua
obstinação, em dar ao mulato um
lugar ao sol na sua Pátria, constitui
em si um acto de emancipação e de
autonomia. Se, a um dado momento,
o africanismo militante dos nacionalistas
caboverdianos entrava em
choque com o mulatismo defendido
por Gabriel Mariano e outros membros
da Claridade, a verdade é que
a história actual lhe dá razão. Nada,
entretanto, lhe impediu de marchar
lado a lado com os defensores duma
exclusiva africanidade de Cabo
Verde na luta de libertação de Cabo
Verde e Guiné-Bissau. Alguns dos
seus poemas, como Caminho de São
Tomé e Capitão Ambrósio, foram
gravados em disco pelo PAIGC,
durante a luta de libertação.
Tivemos contactos permanentes:
em 1965, durante semanas, na Ilha
do Maio, falámos de tudo e nessas
discussões estiveram presentes o Dr.
Crato Monteiro, amigo pessoal de
Amílcar Cabral e já falecido, o
Agnelo Leite e Celso Fernandes, na
altura administrador do Concelho e
também já falecido. Numa discussão
sobre o apartheid na África do Sul,
ele ousou dizer abertamente que
somente com a subida dos negros
ao poder seria possível pôr termo
ao apartheid, coisa que podia levar
qualquer pessoa à prisão da Pide.
Encontramo-nos depois na Praia, no
mesmo ano, e, face à sua transferência
compulsiva para
Moçambique, foi possível a um
grupo de amigos financiar a edição
do seu livro de poemas Doze
Poemas de Circunstâncias. Em 1974,
após a queda do fascismo em
Portugal, encontramo-nos em Lisboa
e pediu-me para publicar em Paris,
na revista da Associação
Caboverdiana de França, a segunda
parte do poema Capitão Ambrósio,
escrito na Ilha de Moçambique. Em
1992, ele esteve em Paris e pôde
entregar-me alguns exemplares do
seu livro de ensaios Cultura
Caboverdiana, com prefácio do
Professor Alberto de Carvalho, um
volume dos seus contos e ainda o
seu último livro de poemas Ladeira
Grande. Viemos depois ainda a nos
encontrar em Cabo Verde, precisamente
em São Vicente, já reformado
mas bastante doente, o que o obrigara
a regressar a Portugal.
A ausência dum projecto sobre a
emigração nos obriga a assistir, com
uma revolta permanente, o desaparecimento
de grandes figuras caboverdianas
no estrangeiro, quando
muitos após a reforma poderiam ter
regressado ao país com o seu saber,
a sua experiência e com a sua reforma.
A saúde tem importância fundamental
na economia e um país
sem saúde é obrigado a ver as suas
economias partir para os países
onde os seus cidadãos, em procura
de mais uns dias ou anos de vida,
conservam as suas economias, que
aliás poderiam ser úteis ao país. Um
exemplo neste sentido é a República
de Cuba, que embora a extrema
pobreza, conserva um sistema de
saúde dos mais importantes do terceiro
mundo. Ninguém regressa a
um país onde a saúde pública não
está garantida, mesmo se houver
grandes clínicas privadas. Cabo
Verde tem falta dum pessoal médico
mas tem mais de trezentos médicos
no estrangeiro. Pergunta-se por
culpa de quem ? E enquanto o “processo
continua” como dizia o poeta
Ovídio Martins (Vitinha, para os amigos)
seu companheiro de quarto e
de muitas coisas no Liceu de São
Vicente e em Lisboa, enquanto esse
problema da saúde não for resolvido,
“continuamos a morrer, meu
capitão” “sem culpa e sem
razão/meu Capitão/E a morte chega
sempre indesejada./Também indesejada
foi a tua/Longe deste chão,
meu capitão...” (poema Capitão
Ambrósio, de Gabriel Mariano). Não
há desenvolvimento sem saúde, não
há desenvolvimento sem justiça,
como não há desenvolvimento sem
democracia.
Ao passar pelo cemitério de São
Vicente em visita aos meus, fui fazerlhe
mais uma visita, na primeira rua,
ao lado de Baltasar Lopes. Havia
uma coroa do poeta e ensaísta
Onésimo Silveira com um extracto
do seu poema Nada nos separa dos
nossos companheiros. Podes estar
certo Gaby, amigo de todas as horas,
verdadeiro caboverdiano e universalista
convicto, que nada nos separa.
Pedimos que o teu nome seja
dado a uma rua, a uma escola, e
uma estátua no coração da ilha em
tua memória. O Capitão Ambrósio
teve a sua rua no coração do povo.
Caboverdianamente 
Paris-Mindelo, Abril de 2002

http://www.revues-plurielles.org/_uploads/pdf/17_16_15.pdf

quarta-feira, outubro 08, 2008


Dom Salvador

Ainda a madrugada riscava o céu
quando D. Salvador
envolto por denso nevoeiro sebastiânico
chegou.
Acredita ser cavaleiro andante
mas não transporta em si
os sonhos de lutar contra moinhos de vento e gigantes
não tem uma Dulcinéia, uma musa, uma inspiração
alguém por quem lute
até contra o vento dos moinhos
na escalada de montanhas
na travessia de desertos
ou no cruzar dos mares.

Sem calor e sem amor
vive na escuridão
rasga o vento e o tempo
com pesadelos e delírios
perde o juízo
entende ser o salvador
da república verbal
herdeiro da caixa de Pandora.

Sem moral e sem pudor
nesta intensa verborreia
despreza a memória de seu pai
e corrói o cordão umbilical.

Eis a antítese de D. Quixote!

D. Salvador de tez pálida
tronco curvado
falando ríspidamente
ou de sorriso sem nexo
ou chorando a vida
perdida que não soube viver
inferno do qual não se liberta
revelando a intolerância dos falsos profetas
como águia devoradora do imortal e regenerador fígado
o seu tormento prolonga-se.
Quem o salvará? Sabará?


Queluz, 08 de Outubro de 2008

João Mariano

quinta-feira, setembro 04, 2008

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quarta-feira, setembro 03, 2008

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Aparentemente a estrada estava limpa

Aparentemente a estrada estava limpa
nem o outono tinha chegado
azul no céu, sorridente o sol
Na gruta vivida
o tempo deixou de o ser
outro vento ventava
outro tempo emergiu
e submersa nessa hibernação (quase)
assim ficou.

Noite serena, cheia d'angústia
Nessa noite alguém disse:
seis meses e ficará bem
falarei com os meus anjos.

Crente não sou, nem nos meus desejos
esse alguém pensou
na submersa hibernação (quase)
partilhou a amizade.

É bom. Gostei!
O tempo deixou de o ser
O tempo deixou de permanecer
Até quando?

João Mariano

sábado, agosto 23, 2008

Lá vou indo

Lá vou indo
não me lembro do hino
e a hiena que não me larga
partirei sem ninguém
a lua, em eclipse, nasceu

Lá vou indo

Lá vai indo?
e o seu marido como stá?
Lá vai indo...
chuvas sem astro
e eu sem gosto.


7 de Agosto de 2008
ontem Mã fez anos
Hoje vou sair de casa
Irei pra casa
com minha filha
doente todavia.


Diz-me para onde vou
no ouvido sussurrando
diz-me

João Mariano