quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Esta terra não é tua

Esta terra não é tua
Esta terra não te pertence

Regas as tuas sementeiras
com o sangue do teu semelhante
e queres sempre mais sangue
não o ajudas a levantar a carga
que tu determinas
 
Esta terra não é tua
Esta terra não te pertence

A semente que lanças ao chão
degrada quem te rodeia
porque és pequeno e mísero

Sugado pelo teu apetite devorador
como se um louco fosses
soltando faíscas e flechas
exangue permanece o teu irmão
enfraquecido no catre que lhe subtraíste.

Esta terra não é tua
Esta terra não te pertence.
 
João Mariano

“Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: Ame o seu próximo como a si mesmo.” – Cristo, o Operário
 

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Sou pastor de processos


Sou pastor de processos

Pastoreio-os pelas íngremes colinas

da Casa da Justiça

 

Sou pastor de processos

Alimento-os com papel e tinta

ficam lãzudos e luzidios

depois, gordos, com consistência xaroposa

 

Sou pastor de processos

Apascento-os

deleitando-me com a sua marcha

quase mórbida, com o seu decurso lânguido

 

Não curo almas

Sou guardador de processos

que é acordado de manhã

por uma lei maior e inacessível

em perfeita conformidade

com os donos das íngremes colinas.

 

João Mariano

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Retorno


Posto o pensamento nela,
Porque a tudo o amor cativa,
Cantava e cantarei
Em louvação por ela.
Nisto andava eu
No meu desejo enganado,
Perguntando a quem passa:
- Vistes lá o meu amor?

Meus olhos no chão pregados,
Que, do chorar já cansados,
Algum descanso lhes dá.
Desta maneira
Suspendo de quando em vez
Minha dor

Pois seus olhos d’água,
Querem que a dor se abrande
Secando minhas lágrimas.

 

João Mariano

 

quarta-feira, novembro 21, 2012

Questão


“AS armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.” – Lusíadas, Camões

Plágio Camoniano

Companheiras e companheiros lembram-se
das memórias gloriosas
daqueles que foram dilatando
as gordurosas terras viciosas
e emigraram pra outros mundos
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei económica libertando.


Cantando espalharei por toda parte,
Viva o engenho e arte!

A fama das vitórias que tiveram
Eu canto no peito aberto à ternura o ilustre Lusitano,
A quem Cavaco, Santana, Barroso e Passos obedecem
Cesse tudo: Merkel canta,


Outro valor mais alto se alevanta
Se tu te alevantas eu me ajoelho.
Foi de mim, que vosso rio
alegremente eleito nasceu
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo diferente
Por que de vossas águas

nasce nova fogueira

Dai-nos uma fúria grande e sonorosa,
E não tão agreste e ruda e belicosa,
Que o vosso gesto tenha a luz e a cor
Será que tão sublime preço cabe em verso?

Passos nascido da segurança
Da antiga liberdade,
E não menos do certíssimo caminho
Do enorme aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo amor da Merkel
lanças,
um Gaspar como se um Deus fosse,

que todo o mande,
Fatal na nossa idade.

Vós, tenro e novo ramo florecente
Perdendo cabelo, todavia,
De uma árvore de Cristo amada vindes

Pois, betinho sois
e tu já viste a cruz que o povo tomou
bebendo o licor do santo Rio?

João Mariano




 

quinta-feira, outubro 18, 2012

Obrigado senhores


Obrigado senhores

pelo desespero que ofereceis

pelas ruas vazias de esperança

pelos discursos bondosos

anunciando o aumento dos impostos

 

Obrigado senhor-dos-passos

por esta devoção em crucificar-nos

em colocar-nos neste calvário

pela vontade de ajudar a austeridade

pelas noites em rectilínio pensamento

procurando transparentes soluções

em nossos corações

 

Obrigado senhores

pois vós sois

a nossa subtil consciência

pelo voto na urna depositado

depois venham ungir o nosso corpo

com óleo e ervas aromáticas

antes que encontrem o túmulo vazio

Aleluia!

 
João Mariano

terça-feira, julho 17, 2012

Fluxo

Fluxo
mar interno entre as mornas cochas
no secreto momento
em que sentimos o movimento
da maré enchente

Renova o fluxo
desagua dentro de ti
Plexus!

Pedrobala

terça-feira, abril 10, 2012

Ontem um índio tocou

Ontem um índio tocou
nas flautas tinha  as rosas
dos teus lábios

O sóbrio Convento não sabia
o que fazer com as riquezas ameríndias

Foi entre uma fumaça e um café
uma moeda caiu
no chapéu
do velho índio

O ardente Febo encantado brilhou
o rei sol
na estátua petrificada ficou
no Convento, seu solar, a sua avenida
imaginada ao encontro do mar,
na flauta do índio ela apareceu
deu-me a sua mão
matamos a besta
o ardente Febo adormeceu
e entre nós o ouro surgiu

João Mariano

quarta-feira, março 21, 2012

O vrummmmmm das fábricas que não existe

O vrummmmmm das fábricas que não existe
os motores que não roncam, porque nada produzem

O ui,ui,ai,ai que paira no ar
nas algibeiras vazias
do terceiro estado
desta nação trespassada, arrendada ou vendida?

O toque-toque que se ouve nas portas e nos passos
daqueles que pedindo auxílio
perderam uma construção destinada a habitação
indo à procura de uma cova com fundo

O penhor e a penhora
dos anéis que não têm dedos
este vrummmmmmmmmmm dos aviões
dos comboios e dos autocarros
levando desterrados para terra-longe
porque aqueles que estão nos negócios públicos
assim o dizem, assim o aconselham…

Vrummmmmmmmmm
Ui, ai, ui, ai
Vrummmmmmmmmm…

Não vou por aí, fico por aqui!

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Amor és a razão da minha existência

Amor és a razão da minha existência
Leva-me para terra-longe
Hoje, no sopé do vulcão,
esta força que torna a terra fértil,
imaginei a árida grandeza
das nossas gentes!

terça-feira, janeiro 10, 2012

Corpo desprendido

Amor plural e único.
Concentração dos ventos dispersos.
Uníssono é o sorriso e o sussurro.
Somos um.
Em homenagem a Gabriel, Patriarca e Pai
 
 
Passado o longo mar da tua teimosia
Teu é o porto grande.
Ao fim de àrdua luta partilhada
de luas, de eclipses e viragens
tua é a vitória.

Pois que combateste o bom combate
repousa com orgulho a tua espada,
colhe a vela do teu contentamento,
abraça o teu pilão, agarra a tua enxada
e cria novos sonhos de Futuro.
 
João Mariano

quinta-feira, novembro 24, 2011

Espiral
curva plana
girando em torno do seu polo
ora se afastando
ora se aproximando

Minha linha curva
que não se fecha
vai dando voltas
enroscando-se nas colunas do tempo
sem nunca retoceder...

João Mariano

Espiral

quinta-feira, novembro 17, 2011

Moamba no morro

Moamba no morro
cidade sem forro
no ar pairando 

O cheiro a óleo de dendê e a peixe seco

À sombra de palmeiras e coqueiros
desfilam na avenida
a riqueza facilmente despojada
aos pés-descalços da vida
perdidos nos bolsos vazios

Moamba no morro
cidade sem escolha
no ar permanecendo

O caminhar requebrado da mulata chinelando

quinta-feira, setembro 08, 2011

Expiação

Assombraram dentro de mim
as marés
e os longínquos ventos
do tempo passado.

Todavia,
o mar é azul
o teu sorriso cor-de-rosa
e o teu meigo olhar
na noite fria
anuncia um beijo doce e quente

Quero expiar a minha culpa
quero cumprir a minha penitência
purificar minh’alma
lavar o meu corpo
nas lágrimas que escorreram pela tua face

Quero tirar a opressão do teu choro
ecoando no meu cérebro:

Eis a minha culpa!

terça-feira, julho 19, 2011

A Maneira

Estamos aqui reunidos para decidir a maneira. Todos nós sabemos a maneira, mas não sabemos como lá chegar.


O que tenho para transmitir é sugerir o caminho para a maneira. Após uma análise cuidada, dei conta que o caminho é sinuoso e a maneira encontra-se para além desta sinuosidade. Teremos, pois, de descobrir um ponto de partida. Aqui, o problema é deveras complexo, porque torna-se visível, a olho nu, outros pontos, nomeadamente, o ponto e vírgula e os dois pontos, para não mencionar o ponto parágrafo. Este último é muito importante, uma vez que, poderemos dar um salto qualitativo para atingir a maneira.

O ponto final é de afastar de forma liminar. Vejamos: o ponto final, como o próprio ponto indica, é o fim do caminho, significa, portanto, se encontrarmos a maneira, encontraremos o ponto final.

A primeira conclusão será esta: o ponto final, nunca poderá ser o ponto de partida para alcançarmos o que pretendemos, a maneira.

O ponto e vírgula tem pausas, é urgente saber a maneira, estar com ela intimamente, com estas pausas, teremos de efectuar orações e separar as partes do nosso caminho. A maneira vai-se perdendo nos horizontes de todos os horizontes.

Os dois pontos indicam os primeiros sintomas de um acontecimento. Já não é mau, porque é um sinal precursor do caminho que encorajadoramente insistimos em fazer, atingir a maneira.

A segunda conclusão será esta: os dois pontos não são um ponto de partida para atingir a maneira, porque trata-se, só e apenas, de um sintoma, de um sinal enviado pela maneira.

Quanto ao ponto parágrafo é reconfortante saber, que quando acaba uma coisa, começa outra. Mas é aterrorizante perceber que para começar essa outra, devemos acabar alguma coisa. Por outro lado, o símbolo para parágrafo é representado por dois “esses” unidos. Não será conveniente separar o que está unido. O parágrafo, é pois, o precursor da mudança de linha e do espaço. Por isso realcei, há pouco, a sua importância para atingir a maneira. O ponto parágrafo tem um porém: está em constante mutação, tanto na sua linha, como no espaço que ocupa.

Como atingir a maneira, se ainda não encontramos o ponto de partida? Como poderemos partir, se não sabemos como lá chegar?

A terceira conclusão será esta: a descoberta do ponto é fundamental para atingirmos a maneira.

Queluz, 19 de Julho de 2011

João Mariano

quarta-feira, junho 22, 2011

Eterno retorno

“Necessário vos é nascer de novo.”
  – Jesus, o Cristo, filho de José, o operário. João, 3,7

Ana Baptista
Cansada do seu falecido marido
De tanto o amar
Dele não se quer lembrar.

A casa à beira-mar nascida
Longe dos fumos da cidade
Tornou-se lembrança
Pesada
Como se idade não tivesse.
Ana, não sabe ou não quer ninguém
Mas se alguém não fosse
Como seu falecido e amado marido
De novo se enamorava?

João Mariano

quarta-feira, junho 08, 2011

Soberba

Ei meu!
Já viste os cartões de visita
do Prof. Dr. XPTO e do Prof. Dr. XPTO mais um
que transporto na minha carteira?

Nem as minhas bebedeiras
Nem o meu estado maníaco-depressivo
Nem as tristes figuras que figuram
no que faço
impendem que tão lustres pessoas
reconheçam o meu elevado estatuto.

Sou mais velho
do que Cristo, o operário
Sou do tempo de Alexandria
Até nem sei o que faço aqui
por aquilo que nunca fui
Finjo ser o que não sou
porque os outros
são o meu desdém.

Grito quando quero
e berrando imponho
os meus erros

Sou um astro em ascensão

Tenho comigo cartões de visita
XPTO e XPTO mais um
Nem as tristes figuras que figuram
no que faço
impendem que tão lustres pessoas
reconheçam a minha vanglória.

João Mariano

quarta-feira, maio 25, 2011

Aniversário afastado no Tempo

Hoje é dia de aniversário
do teu aniversário, meu pai
dia em que se completam os teus 83 anos

Todavia, a tua ausência
faz-se sentir nesta Terra-Longe.

Veio-me à memória,
no tempo que era menino,
o dia em que viajaste para a Ilha Brava
e pensando quis,
furar o retrato em que encaras
o mundo com um semblante circunspecto,
para contigo poder permanecer.

Hoje,
não vou perfurar o retrato
porque no tempo em que estamos
contemplo esta medida arbitrária da duração das coisas
este processo de produção de imagens através da fixação da luz:
olhando para ti
para a tua imagem reproduzida pela fotografia
sinto radiosamente o teu olhar luminoso.

Meu pai
Hoje
Não tem presente, não
Hoje tem a tua recordação
Como se presente estivesses.

18 de Maio de 2011
João Mariano

sexta-feira, maio 13, 2011

Crache


Tenho a cabeça a estourar
os ouvidos zumbindo
e de tanto zumbir
que o peito apertando com tanta gravidade
que mais parece estrela de neutrões

Nada mais faz sentido
tenho dificuldade em caminhar
as pernas não executam a ordem
não querem obedecer
porque nada há a cumprir

Sem agrado nesta rotina que me prende
arrasto-me dentro de mim
e nesta náusea que eu próprio criei
sufocando me vou afundando

Onde está a luz
que me encanta e ilumina?

Anseio por ela…
Padeço por ela…

Suplicando te peço:
tira-me deste sono com o teu sorriso
e na matinal manhã com o teu jeito
levemente passa a tua mão quente
sobre o meu peito.

Onde está a luz
que me encanta e ilumina?

Anseio por ela…
Padeço por ela…

Queluz, 13 de Maio de 2011
João Mariano

segunda-feira, maio 09, 2011

Uma andorinha na primavera

Uma andorinha na primavera
um bando delas no meu quintal
um voo a pique descendo o penhasco

A nuvem escura pairando no céu
escondendo o Sol, anunciando tempestade
rajadas furiosas batendo na parede branca
a árvore com as raízes de fora da terra
revelando a morte anunciada
 
Uma andorinha na primavera
um bando delas no meu quintal
um voo a pique descendo o penhasco

O cansaço da rotina
o desespero da velocidade do tempo
o choque eléctrico provocado
pelo ribombar dos trovões

Uma andorinha na primavera
um bando delas no meu quintal
um voo a pique descendo o penhasco

O berço às avessas
e a rua estreita que termina em beco
nesta estiagem em que o vento frio
trespassa a fresta da janela
penetrando como pequena peça metálica
nas mãos de soldados indisciplinados

Uma andorinha na primavera
um bando delas no meu quintal
um voo a pique descendo o penhasco

Pedrobala